Conservação em ação: como o turismo pode financiar a proteção
Um olhar equilibrado sobre os mecanismos que ligam turismo e financiamento da conservação — das conservâncias comunitárias da Namíbia aos limites documentados desse modelo.
Em resumo
- Em partes da África Austral, o turismo de vida selvagem financia a conservação de forma direta, por meio de conservâncias comunitárias — não apenas indiretamente, via impostos gerais.
- O caso mais documentado é o da Namíbia: a maior parte do valor autogerado pelas conservâncias comunitárias vem de acordos com o turismo fotográfico e, em parte, com a caça controlada.
- O modelo tem um ponto fraco estrutural: depende de um fluxo constante de visitantes, e um choque como a pandemia expõe essa fragilidade com rapidez.
- Outros parques cobram entrada abaixo do que pesquisas de precificação consideram necessário para cobrir seus próprios custos de gestão — o que questiona a ideia de que "o turismo financia a conservação" sozinho.
Um modelo que nasceu de um problema concreto
Antes de 1990, a vida selvagem fora das áreas protegidas formais da Namíbia tinha, na prática, pouco valor econômico legal para as comunidades que viviam ao lado dela — o que criava um incentivo perverso: um animal representava risco para plantações e gado, sem representar benefício direto para quem convivia com ele. A resposta veio por via legislativa: a partir de uma política nacional de 1995 e de uma emenda à lei de conservação da natureza em 1996, comunidades rurais da Namíbia passaram a poder formar conservâncias comunais registradas, com direito a administrar e lucrar com o uso sustentável da fauna em suas terras — incluindo o turismo.
Como o dinheiro chega até a conservação
Na prática, a maior parte da receita dessas conservâncias vem de acordos de compartilhamento de receita com empresas de turismo fotográfico e, em algumas áreas, também com a caça controlada — mais de 90% do valor autogerado pelas conservâncias namibianas, segundo dados reunidos por organizações que acompanham o programa, como a rede de Community Conservation Namibia. Esse dinheiro paga, entre outras coisas, fiscalização contra caça ilegal, empregos locais ligados à conservação e, em teoria, reduz o incentivo para converter terra de vida selvagem em outro uso econômico.
O que os números mostram — e o que não mostram
O investimento acumulado de doadores e do governo no programa namibiano de gestão comunitária de recursos naturais soma, segundo relatos do setor, a ordem de bilhões de dólares namibianos desde 1990, vindo em boa parte de agências internacionais de cooperação. Esses mesmos relatos apontam um retorno em renda nacional líquida superior ao valor investido — um resultado favorável, mas que depende da metodologia de cálculo usada e não deve ser lido como um número isolado e definitivo; estimativas desse tipo variam conforme o período e os critérios considerados.
Ainda assim, "funcionar na Namíbia" não significa "funcionar em qualquer lugar". O modelo namibiano se apoiou em um arranjo legal específico — direitos de uso da fauna transferidos formalmente às comunidades — que não existe da mesma forma em todo país do continente. Copiar o resultado sem copiar a estrutura legal por trás dele tende a decepcionar.
Os limites do modelo: dependência e preços baixos
O primeiro limite é a dependência. Quando o fluxo de visitantes para, a receita para junto — e a pandemia de covid-19 deixou isso evidente para conservâncias e parques que dependiam quase inteiramente do turismo internacional. Organizações que acompanham o programa namibiano já apontam esse risco como estrutural, ao lado da pressão crescente, em alguns países europeus, para restringir a importação de troféus de caça — outra fonte de receita da qual parte das conservâncias ainda depende.
O segundo limite é menos falado: muitos parques nacionais africanos cobram entrada abaixo do que pesquisas de precificação consideram necessário para cobrir seus próprios custos de gestão. Um estudo de referência sobre tarifas de parques nacionais, publicado na revista PARKS — ligada à IUCN —, por H. Van Zyl (2019), argumenta que parques em países em desenvolvimento frequentemente deixam receita significativa "na mesa" ao cobrar tarifas baixas mesmo diante de mandatos crescentes de conservação. A Serviço Científico do SANParks, na África do Sul, levanta uma questão semelhante ao perguntar diretamente se os parques africanos cobram entrada suficiente — o que sugere que a frase "o turismo financia a conservação" é, hoje, mais uma meta do que uma descrição precisa da situação já alcançada.
Quando o financiamento por turismo falha: o caso de Madagascar
O exemplo mais nítido desse limite vem de Madagascar. Um estudo publicado na revista científica PLOS ONE em 2023, de Andrianambinina e colaboradores, documentou que as tarifas de entrada da rede de parques nacionais do país nunca geraram receita suficiente para cobrir o custo de gestão das áreas protegidas — mesmo depois de décadas de desenvolvimento do ecoturismo local. O choque ficou mais visível durante a pandemia: a receita de turismo despencou a cerca de apenas 1% do valor necessário para financiar a gestão em 2021, segundo os autores — uma cifra específica desse estudo e desse país, que não deve ser generalizada para toda a África, mas que ilustra bem o risco. A conclusão do estudo não é que o turismo seja inútil como fonte de financiamento, mas que ele precisa ser combinado com outros mecanismos — fundos fiduciários de conservação, doações e financiamento público — para não deixar a proteção de uma área inteira refém da ocupação de hotéis.
O que isso significa para quem visita como estudante do assunto
Para quem está aprendendo sobre safári, e não vendendo passeios, a lição prática é dupla. Primeiro: cada valor gasto em taxa de parque, alojamento ou serviço de guia local tem um peso desigual dependendo de onde vai — uma conservância comunitária bem estruturada costuma repassar mais do valor gerado para a comunidade e a fiscalização local do que uma tarifa de entrada genérica de um parque nacional tradicional, embora nem sempre seja fácil, de fora, distinguir um caso do outro sem pesquisar antes. Segundo: financiar a conservação não é incompatível com — na verdade, depende de — se comportar bem em campo, tema que já detalhamos em turismo responsável: observar a fauna sem prejudicá-la. Um visitante que segue as regras de distância e reduz seu próprio impacto ajuda a manter viável, a longo prazo, o mesmo modelo que financia a proteção que ele veio observar.
Quem está no estágio de planejar essa primeira viagem encontra o passo a passo prático em como preparar seu primeiro safári: lista e etapas essenciais — a preparação bem feita e o comportamento responsável em campo são, no fim, as duas metades da mesma decisão.
Fontes
- Community Conservation Namibia / NACSO. Dados sobre o programa de Gestão Comunitária dos Recursos Naturais (CBNRM) na Namíbia. communityconservationnamibia.com.
- Van Zyl, H. "National Park Entrance Fees: A Global Benchmarking Study." PARKS, vol. 25.1, IUCN, 2019.
- Andrianambinina, F. O. D.; Schuurman, D.; Rakotoarijaona, M. A.; Razanajovy, C. N.; Ramparany, H. M.; Rafanoharana, S. C.; Rasamuel, H. A.; Faragher, K. D.; Waeber, P. O.; Wilmé, L. "Boost the resilience of protected areas to shocks by reducing their dependency on tourism." PLOS ONE, 2023.
- SANParks Scientific Services. "Do African Parks Charge Adequate Entrance Fees?" sanparks.org.
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